Bioplástico dá tréguas ao mar

Bioplástico dá tréguas ao mar 27Jan
Sustentabilidade

O plástico é um dos maiores inimigos contemporâneos no movimento sustentável que se generalizou um pouco por todos os sectores de atividade. Algas e resíduos de peixes estão na origem de uma nova alternativa que não só se decompõe naturalmente, como também pode servir de alimento às espécies marinhas.

O novo protótipo de embalagem assemelha-se ao plástico convencional, mas é produzido a partir de resíduos de peixe e algas. Desenvolvido por Lucy Hughes, licenciada pela Universidade de Sussex do Reino Unido, o material foi batizado MarinaTex e, ao contrário do plástico convencional, é rapidamente biodegradável e seguro para ingestão por parte de espécies marinhas.

«Tudo começou a partir do meu desejo de trabalhar com o desperdício», revela Lucy Hughes. Durante uma visita às instalações de processamento de peixes da empresa MCB Seafoods Ltd., observou a quantidade de resíduos gerados pela indústria e identificou dois materiais com elevado potencial para aplicação têxtil – peles e escamas de peixe. «Quando os tive nas minhas mãos, percebi que tinham potencial», explicou. «É [um tipo de material] muito forte, flexível e maleável», apontou.

Após meses em experimentações, mais de 100, para encontrar um ligante e um processo que pudesse fixar as proteínas nas escamas e peles dos peixes, Lucy Hughes encontrou finalmente a resposta num tipo de alga local. «Precisava de encontrar um material que tornasse a fórmula mais consistente. Desafiei-me a procurar um que tivesse origem no fluxo de resíduos local», afirma ao portal de notícias Phys.org.

Ao contrário, de alguns plásticos “compostáveis”, que precisam de ser processados em unidades industriais, o MarinaTex necessita entre quatro a seis semanas num quintal. «Todos os ingredientes são seguros enquanto alimentos», afiança Hughes, «logo, degradam-se exatamente como aconteceria com um pedaço de comida». Se fosse acidentalmente despejado no oceano, não representaria qualquer perigo para as espécies marinhas, já que «os ingredientes principais são proteínas de peixe e algas, o que equivale ao tipo de dieta alimentar normal dos peixes», assegura.

O carácter inovador do material valeu, este ano, o prémio James Dyson para Lucy Hughes, que arrecadou 30 mil libras (35,12 mil euros), numa edição que registou o maior número de concorrentes femininas, de 27 países diferentes, desde que se iniciou em 2007. James Dyson, que esteve na origem da Fundação James Dyson, acredita que esta solução «resolve, de forma elegante,» o problema da utilização de plásticos descartáveis e dos resíduos de peixes, refere a agência de notícias BBC.

 

Tendência sustentável

Apesar de a investigação ainda estar em fase embrionária, Lucy Hughes calcula que o material pode ser competitivo em termos de custos, dado o processamento a baixas temperaturas que lhe está inerente, poupando energia comparativamente à produção de plástico convencional – os resíduos de um único bacalhau do oceano Atlântico podem resultar em 1,4 mil sacos de plástico.

O próximo passo é compreender o alcance das propriedades de conservação do MarineTex, para poder ser aplicado ao armazenamento de comida. Por outro lado, Hughes planeia continuar a investir em I&D e patentear o produto à medida que se prepara para a produção. «Com o MarinaTex, estamos a transformar o fluxo de resíduos no componente principal de um novo produto. Ao fazê-lo, criamos um material semelhante ao plástico consistente e transparente, com um ciclo de vida mais ecológico e apropriado ao produto para embalamento», considera.

No âmbito do movimento sustentável que se assume como uma das grandes tendências atuais, Lucy Hughes afirma já ter recebido várias propostas por parte de grandes marcas e supermercados. Esta iniciativa vai ao encontro do compromisso global da Fundação Ellen MacArthur, cujas mais de 400 empresas signatárias prometem reciclar, reutilizar ou decompor todos os plásticos decorrentes da sua atividade interna que não podem ser eliminados. «Não faz sentido para mim usar plástico, um material incrivelmente durável, para produtos que têm um ciclo de vida inferior a um dia. E não estou sozinha, há uma comunidade crescente de pioneiros de bioplástico que estão a trabalhar no sentido de encontrar alterativas para a nossa dependência sobre o plástico», garante.

Lucy Hughes acredita que a supressão total da utilização de plástico deveria ser a prioridade, mas compreende que o processo de adaptação a novos hábitos de consumo pode ser lento – entretanto, o MarineTex poderá ser a alternativa. «O meu principal objetivo é substituir o embalamento descartável», sublinha.

 

Fonte: Portugal Textil

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