Têxteis-lar inovam nos materiais

Têxteis-lar inovam nos materiais 03Fev
Inovação

Apesar de ser um processo lento, a indústria têxtil está a progredir no que diz respeito à inovação de materiais. O sector dos têxteis-lar é um dos exemplos em destaque, com grandes avanços como prova. Com a sustentabilidade como foco, o Future Materials Lab da Heimtextil apresentou os desenvolvimentos mais recentes para interiores no 50.º aniversário da feira internacional de têxteis-lar. A ideia subjacente é fazer com que o desperdício de hoje seja a matéria-prima de amanhã, uma vez que o consumo excessivo de recursos naturais já por si limitados está a fazer com que as marcas e os retalhistas repensem e recuperem os desperdícios. «Já não chega falar sobre o que há de novo e o que vem a seguir. Em vez disso, precisamos de falar da origem dos nossos materiais, o que fazemos com eles e onde acabam no final do ciclo de vida», afirmou Amy Radcliffe, editora da empresa Franklin Till numa palestra na Heimtextil em Frankfurt. Amy Radcliffe mencionou também o facto de não ser só a indústria de vestuário a responsável pelos resíduos têxteis, mas também o sector dos têxteis-lar, que já experienciou a própria versão de fast fashion e contribuiu para a problemática ambiental. «Estamos a começar a ver alternativas… desde materiais vivos e cultivados à produção de tecidos a partir de resíduos humanos biológicos», explicou, apontando ainda quatro áreas de inovação nos tecidos: materiais recuperados, produtos biológicos, recursos naturais e materiais vivos, que o Sourcing Journal analisou à lupa. Recuperação de materiais Os fabricantes estão, cada vez mais, a explorar formas de continuar a produzir, mas com a preocupação de utilizar menos recursos, de modo a aliviar os problemas ambientais durante o processo. A Recyc Leather, sediada em Hong Kong, procura combater o desperdício na indústria de couro ao usar desperdícios provenientes de luvas e ao uni-los com borracha natural enquanto composição de mochilas, sacos, ténis e outros artigos. Recyc Leather O designer britânico Christopher Raeburn está a transformar resíduos de aterros em novas coleções, dividindo as atenções entre o estilo das criações e o propósito da mensagem. Denominada Raemade, a linha inclui artigos como o Off-Cut Insulation Puffa faricado a partir de poliamida reciclado de paraquedas e isolado com desperdícios reciclados. Tudo o resto no casaco é feito de outras sobras de materiais, o que faz com que cada peça tenha um caráter único. Embora o desperdício têxtil tenha sido reaproveitado para reinvestimento e isolamento de carpetes, a Circular Fibres da França espera ir mais além. A designer Charlotte Cazals está a desenvolver tapeçarias, cobertores e estofos 100% algodão e poliéster reciclado, aumentando a durabilidade dos artigos e bordando-os de forma criativa. «Os designers estão a intercetar os desperdícios, têxteis e papel antes de chegarem aos aterros», destacou Amy Radcliffe. Produtos biológicos Com o aumento do consumo de alimentos devido ao crescimento contínuo da população, os inovadores da indústria têxtil procuram explorar formas de aproveitar os desperdícios, que têm vindo a aumentar, e até mesmo os desperdícios humanos. A reagir à previsão de que a população mundial deverá exceder nove biliões em 2050, Amy Radcliffe admitiu que resíduos como o cabelo humano são uma «nova promessa» como matérias-primas para os têxteis. Sanne Visser De acordo com o Future Materials Lab, a investigadora e designer Sanne Visser recolheu restos de cabelos de cabeleireiros como alternativa à poliamida, que podem ser usados para cordas, cordões e redes. O cabelo é torcido em fio com técnicas tradicionais e o objetivo da designer é desenvolver tecnologia que possibilite aos fabricantes de todo o mundo replicar o processo para uma «matéria-prima universalmente escalável e sustentável». Na Studio Sarmite, o foco está em usar a casca de pinheiro, geralmente descartada quando as árvores são cortadas para madeira, para conceber tapetes, bolsas e cestas. A empresa sediada nos Países Baixos trata a casca com ceras naturais para preservar a suavidade e aprimorar as qualidades próximas do couro. No México, a Totomoxtle utiliza cascas de milho e técnicas antigas para obter material de revestimento para mobiliário. O designer de materiais Fernando Laposse coordena o projeto, em que as mulheres locais recolhem as cascas, amolgam-nas e juntam papel ou suportes têxteis para produzir os artigos. Recursos naturais As empresas já entenderam a necessidade de inovar quando se trata de matérias-primas, para que seja possível sustentar o negócio sem aumentar os danos ambientais que estão a fazer com que as matérias-primas tracionais se tornem cada vez mais escassas. «Precisamos de ser mais flexíveis e ágeis no aprovisionamento de matérias-primas. Estamos a aperceber-nos lentamente que os métodos modernos de produção não são necessariamente os mais sustentáveis», reconheceu Amy Radcliffe. Barktex No Uganda, está a fabricar-se um tecido batizado Barktex, feito da casca da árvore do leste de África conhecida como Mutuba ou Natal, que, segundo o Future Materials Lab, «está entre os têxteis mais antigos conhecidos pelo homem». Os agricultores locais podem colher a casca todos os anos sem prejudicar as árvores, o que faz com que o material seja «infinitamente sustentável». O tecido resultante, que pode assumir várias texturas, é adequado para o revestimento de paredes, superfícies de móveis e acessórios de moda. A Hey Jute está a usar a segunda fibra mais cultivada do mundo, de acordo com o Future Materials Lab. A empresa sediada na Bélgica desenvolveu uma técnica de feltragem com agulhas que preserva o comprimento e o brilho das fibras, usando o material resultante para almofadas e decorações de parede. As algas são a matéria-prima natural predileta da Nienke Hoogvliet para o Sea Me, um tapete fabricado à mão com fios de algas marinhas. Depois deste projeto, a empresa dos Países Baixos pretende usar esta matéria como fio e ainda como corante natural. Materiais vivos O futuro reserva um panorama diferente para as matérias-primas. «Um dia vamos falar do cultivo de têxteis em vez de os fabricar», refletiu Amy Radcliffe. O Ty Syml, um estúdio experimental no Reino Unido está a combinar micélio, a parte vegetativa de um fungo, com substratos residuais, incluindo cânhamo, lascas de madeira e serrim. Depois de cinco a 10 dias, o micélio liga-se ao outro material e resulta num «material compósito leve e forte» usado, até ao momento, em abajures, móveis e painéis de parede. Diana Scherer O desperdício da água de coco também inspirou os têxteis-lar. Na Índia, a Malaj permite a fermentação natural do nutriente que produz, segundo o laboratório, «uma folha de geleia de celulose». Posteriormente, a empresa enriquece o produto com fibras naturais e resinas, que secam naturalmente e são finalizadas com uma camada impermeável. O resultado do processo é um tecido biodegradável semelhante ao papel ou ao couro, que pode ser usado em carteiras, bolsas e sacos. Na Interwoven, a artista alemã Diana Scherer desenvolveu uma técnica em que as raízes de aveia e trigo crescem em modelos ramificados no solo. A estrutura geométrica que emerge assemelha-se a um tecido ou tapeçaria que dura apenas algumas semanas. Devido ao curto tempo de vida, Diana Scherer está em processo de experimentação para fabricar tapetes ou até vestuário no subsolo. Fonte: Portugal Textil

Ligar

Diagnóstico